
A Quantas Águas
A Quantas Águas
Alguém partiu daqui
alguém lançou-se para a frente puxando no entanto
um fio forte ou fraco que o liga à lembrança desta casa
alguém levou a memória das paredes
dos móveis dos corredores das xícaras das cortinas
ela olha os objetos em seus lugares
e pensa que um duplo deles agora vive
em outra cidade em outros cômodos
como uma casa no interior de uma casa
do outro lado do mar
(Ana Martins Marques, Como se fosse a casa)
Em fevereiro de 2026, Marlene Stamm participou de uma residência artística de duas semanas no Projeto Fidalga, em São Paulo. “Residência” é um nome muito apropriado para o processo ali ocorrido. Não no sentido de moradia, mas no sentido de ocupar um espaço e, ao sair, deixar os vestígios da presença que ali passou. Em diálogo com o espaço e as pessoas que o ocupam, Marlene encontrou ali condição para um trabalho que funciona como metonímia para outros entendimentos de casa e as relações que se revelam a partir dela.
Em A quantas águas, projeto desenvolvido no período da residência, Marlene dispôs 450 pequenos papéis sobre uma das paredes da sala, deixando um pequeno espaço entre eles. Pintou sucessivas camadas de aguadas de aquarela em tons terrosos, azuis e roxos acinzentados, deixando a água escorrer de um papel para o outro. Em seguida, retirou os papéis e os transferiu, na mesma disposição, para a parede em frente, produzindo um duplo: de um lado, os papéis aquarelados; do outro, seus fantasmas revelados pelas marcas dos espaços coloridos entre eles. Uma caixa de luz, já pertencente à parede inicial, foi também espelhada em aquarela do lado oposto, obrigando referente e representação a se encararem.
O vestígio deixado pelas marcas da aquarela são um indicativo, ao mesmo tempo, de presença e ausência. O gesto de transferência desdobra um processo que, em
verdade, nasceu único: a pintura dos papéis e do vão entre eles são consequência de um mesmo gesto posteriormente separado. Como afirma o filósofo Jacques Derrida, o trace, ou vestígio, não é simplesmente aquilo que resta após o desaparecimento de algo, mas todo rastro é, simultâneamente, presença e ausência. Assim, não existe uma presença pura, anterior, cuja retirada produz uma ausência, mas a conjunção, num mesmo ato, da existência e da falta.
A inseparabilidade entre presença e ausência atravessa o trabalho de Marlene muito antes de A quantas águas. Produzindo desde a década de 1970 a artista consolidou um repertório principalmente em pintura a aquarela. O jogo de sobreposições, camadas e transparências próprio à técnica ofereceu à artista um campo para investigar a memória e seu apagamento. De diferentes maneiras nas inúmeras séries que compõem sua trajetória, objetos cotidianos e domésticos se tornam vestígios de algo que já não está ali: ruínas de espaços desabitados, objetos sem sujeitos.
Marlene não deixa esquecer que um objeto não é a coisa em si, mas o vestígio de uma subjetividade que os escolheu, os dispôs, os manipulou, os desejou. Seu olhar se volta ao detalhe no espaço, ao rastro sutil da presença que Georges Perec chamou de infra-ordinário. Por tal, o romancista e poeta francês faz referência ao cotidiano banal, ao que é habitualmente ignorado por escapar ao limiar da atenção. O infra-ordinário, claro, se opõe à ideia e à valorização do extraordinário. Perec se propunha a desenvolver uma antropologia do cotidiano, uma observação cuidadosa da realidade de maneira a encontrar o espanto nas coisas triviais. Há também em Marlene um exercício de atenção ao que normalmente passa despercebido: seu olhar se detém sobre as notas de rodapé que compõem a paisagem doméstica de forma sutil, objetos aparentemente secundários, mas, em verdade, carregados de presença.
Assim, em seus trabalhos, um fósforo queimado, pode ser a evidência de uma mão que o acendeu; uma carta sem remetente ou destinatário, ainda tem alguém que a escreve e que a recebe; um buraco na parede, é o vestígio de um lar habitado. Exemplos de séries de trabalho de Marlene, nomeadas respectivamente 24 horas de luz, Vazio e Maria não está mais aqui. Em outra série extensa de trabalhos, chamada XXX, móveis antigos, livros, tomadas, louças e outros objetos cotidianos são empilhados e sobrepostos em camadas da pintura que determinam maior ou menor nitidez e, quiçá, de memória. Aqui, cada objeto tem razão de ser, criando uma espécie de retrato de alguém que não se deixa ver.
Em A quantas águas, os objetos desaparecem e ganham destaque as relações que os significam e os espaços que sempre os contiveram: a casa. A casa que abriga os objetos da produção de Stamm: os móveis, os livros, as tomadas, os fósforos. A casa que guarda as pessoas, mesmo quando elas não estão mais lá. Ainda que ela não exista enquanto imagem, a instalação constrói uma memória sensível. Para Marlene, é a memória de uma casa que, com a chuva, vê a água escorrer e
manchar as paredes de madeira fincadas na terra molhada. A subtração da figuração, elemento novo em seu trabalho, reforça o jogo de presença e ausência iniciado pelo deslocamento dos papéis de uma parede à outra. Enquanto instalação, porém, a obra convoca o corpo, até então ausente, que agora se movimenta pelo espaço, observa a materialidade do pigmento, sente o cheiro da água.
O eco da ausência reverbera na própria condição particular de uma residência artística: ocupar um lugar sabendo que, em algum momento, será preciso deixá-lo. No Projeto Fidalga, Marlene encontrou um espaço que, nos diálogos, convivência e relações, convida a ficar. Ao partir, levou consigo os papéis e deixou na parede as marcas, como um vestígio que lembra, ao entrar, que estamos em casa.
Catalina Bergues











